sábado, 10 de janeiro de 2015


© Tom Gauld para The New Yorker

de novo e sempre a língua portuguesa e o uso que fazemos dela

«Faz pouco tempo, jornalistas ainda escreviam e falavam em português. Isso foi antes do deslumbramento populista com a tal “língua viva”, uma espécie de alforria para cada um poder transformar o Português numa espécie de livre-patuá, que pode incorporar desde jargões ridículos de categorias profissionais até falta de concordância verbal e regência errada.
É claro que a língua é viva, vai mudando ao longo do tempo. Mas como todo espectador de “Walking dead” sabe, ser vivo é diferente de ser morto-vivo. Um zumbi nem articula língua nenhuma. É por isso que hoje a gente vê/lê jornalistas dizendo que a “aeronave” caiu no Mar da China. Mas, em português de gente, o que caiu foi um avião.
Quando jornalista ouve o PM falar em “viatura”, ele deveria transformar isso em carro de polícia. Mas raros o fazem. E a língua precisa é fundamental para se transmitir informação.
Se a Dilma fala uma daquelas frases sem sentido, ela não está “sinalizando” nada. Ninguém sabe onde foi parar o verbo “indicar”? E por que todos estão dizendo que o Planalto “avalia” que a base aliada é inimiga? Por que o Planalto não conclui a mesma coisa?
Quando o jornalista ouve um delegado dizer que existem “provas robustas” contra o acusado, ele deve jogar esse “robustas” no lixo e escrever que as provas são consistentes, contundentes ou mesmo que são muitas. Mas o “robustas” está frequentando texto de jornais, passagens de repórteres de TV e cabeças de âncora de telejornais.
A mesma coisa quando se entrevista um médico dizendo que o pobre defunto “fez” um aneurisma “importante”. O verbo “fazer”, em algum lugar do senso comum, pressupõe a vontade do defunto de ter sofrido o aneurisma – que certamente inexistiu. E “importante” carrega conotação positiva que não combina com a fama de maus dos aneurismas.
Jornalistas (sérios) há pouco tempo tinham um certo orgulho de conseguir manter distância e (consequente) isenção dos entrevistados. Em que trecho do caminho todos passaram a reproduzir cegamente jargões e vícios de categorias profissionais, ou mesmo de quem fala errado? Canso de ler e ouvir que Pelé “segue” internado na UTI. “Segue”, nessa acepção usada, não é português. Por que estão todos aderindo a esse espanholismo (“sigue”) quando nossos queridos continua e permanece estão aí dando sopa?
Economistas e profissionais de RH também são mestres em impregnar a mente dos repórteres com bobagens poluidoras do texto jornalístico de quem não tem mais o menor compromisso em zelar pela “última flor do Lácio, inculta e bela”. E é um tal de inflação “impactando” os salários, “resgatando” a ideia do gatilho (que não foi sequestrado...) e “agregando” sem nenhum objeto direto, como se fosse um verbo intransitivo...
Artistas parecem ter aprendido com esses aí de cima. Outro dia num jornal alguém “revisitava” a obra de outro com um “recorte” (eita palavrinha pernóstica que acabou indo pro título...) contemporâneo. Eu já decidi: quando vejo em jornal, TV ou internet que uma peça ou exposição estão “revisitando” alguma coisa com “recorte”, “um olhar” ou “por um viés” assim ou assado, prefiro ficar em casa. Se na reportagem o jornalista reproduz do entrevistado também as palavras “ocupação”, “desconstrução”, “ruptura” ou diz que as obras são “fronteiriças”, fico me perguntando para que serve uma faculdade de Jornalismo. E se arte é só essa discussão besta e limitada por um universo vocabular tão diminuto e cafona.»

Texto de Milton Abirached, no Facebook.

domingo, 16 de novembro de 2014

o verbo tem que pegar delírio

O delírio do verbo estava no começo, lá
onde a criança diz: Eu escuto a cor dos passarinhos.
A criança não sabe que o verbo escutar não
funciona para cor, mas para som.
Então se a criança muda a função de um
verbo, ele delira.
E pois.
Em poesia que é voz de poeta, que é a voz
de fazer nascimentos,
o verbo tem que pegar delírio.


Manoel de Barros (1916-2014)

quarta-feira, 16 de julho de 2014

a word a day

Wordsmith is a worldwide online community of people who share a love for words, wordplay, language, and literature. They hail from more than 170 countries, from Australia to Zimbabwe and almost all other places in between.

link: A WORD A DAY 


segunda-feira, 23 de junho de 2014

crianças com livros


Ingeborg Bachmann



Medos (1945)

E o que é que vai ficar?
Suspiro, sofro, busco,
e minhas caminhadas
nunca findarão.
A sombra escura
que já persigo desde o começo
leva-me a profundas solidões invernais.
Lá eu fico quieta (…).
Fantasmas azuis saltam para o aposento.
Os que partiram, perdidos diante de mim,
Exigem como homens um antigo direito.
Agora são pagos com flores
que viram muitos verões
e que neste inverno caem irrompendo.
As árvores aninham frio diante de si
e lágrimas, que me atraiu o brilho da lua,
pendem no gelo como espigas secas.
Assim, como ali, sobre o iceberg,
os há muito falecidos escorreram seu sangue,
eu os sigo, para fazer o mesmo.
Ouço os séculos em minha direção
E não quero estar lá apagada inteira.
A sombra, que tão longe  quer ir,
tento oprimir com meu rastro
apenas temendo desperdiçar-me
em vão.

(Do espólio – Tradução Claudia Cavalcanti)


Uma espécie de perda

De uso comum: estações do ano, livros e uma música.
As chaves, as xícaras de chá, a cesta de pão, lençóis de linho e uma cama.
Um enxoval de palavras, de gestos, trazidos, utilizados, gastos.
Uma ordem doméstica respeitada. Dito. Feito. E sempre a mão estendida.
Apaixonei-me por invernos, por um septeto vienense e por verões.
Por mapas, por um canto na montanha, por uma praia e por uma cama.
Mantive um culto a datas, declarei promessas irrevogáveis,
idolatrei um algo e fui devota de um nada,

(- do jornal dobrado, das cinzas frias, do papel com uma anotação)
sem temer a religião, pois a igreja era essa cama.

Minha inesgotável pintura surgiu de olhar o mar.
Da varanda saudava os povos, meus vizinhos.
Ao fogo da lareira, em segurança, meus cabelos tinham sua cor mais intensa.
A campainha da porta era o alarme para minha alegria.

Não foste tu que perdi,
mas o mundo.




"uma tradução é um outro livro" (Thomas Bernhard)






sexta-feira, 13 de junho de 2014

a arte da tradução

"Translation is an art in its own right. I wouldn't dare to translate, although I am fluent in Romanian. For translation doesn't mean just replacing, i.e., finding a familiar word in your own language to substitute for a word in a foreign language. The word has to match, which is much more difficult. A translator has to recreate the sound of the original. The art of translation is looking at words in order to see how those words see the world. Translation requires an inner urgency that will make that which is different as close to the original as possible. Finding this eye-to-eye contact is extremely difficult. It is a great art."

>>  The Space between Languages 

um pouco de humor sempre ajuda a acabar a tese


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