quinta-feira, 5 de setembro de 2013

«Um bom preparador se contrói com muito tempo, experiência e calmantes.»

«Se houvesse bom-senso no mundo, “preparador de texto” seria uma afecção mental categorizada pelo CID-10 (Classificação Internacional de Doenças e de Problemas Relacionados a Saúde, Décima Revisão).
Nas editoras, o preparador é aquela pobre alma responsável pela primeira revisão de um livro, ainda no arquivo de Word. É a mais trabalhosa, que busca limpar o texto, corrigi-lo e aperfeiçoá-lo. O trabalho de preparação consiste em adequar o original às normas editoriais, seguindo um gigantesco manual de padronização que dispõe sobre citações, versaletes, colocação pronominal, pontuação, galicismos, siglas, topônimos estrangeiros e coisas como o singular de “gnocchi”, que é “gnocco” e não pode ser aportuguesado para “inhoco”.
Trata-se de uma leitura atenta, escorada por vasto material de apoio e dicionários vernáculos. Inúmeros detalhes devem ser considerados — itens como sintaxe, coerência, ortografia, ambiguidade, repetição desnecessária, vícios de linguagem, ecos de língua estrangeira, falsos cognatos, ritmos frasais e outras questões de cunho literário. O texto deve fluir bem, sem engasgos.
É obrigação do preparador formatar o arquivo original e bater todos os parágrafos (verificando se o tradutor não pulou nenhum trecho). Essa é uma tarefa particularmente apreciada pelos mais neuróticos, que ajeitam quebras de página e formatam títulos com o entusiasmo de quem toma Berlim.
Um bom preparador é caso psiquiátrico. Convém que ele sofra de um leve transtorno obsessivo-compulsivo e seja persistente, perfeccionista e incansável. É preciso gostar de pesquisar minúcias como a composição química do tricofitobezoar, interessar-se por dispositivos bélicos da Segunda Guerra, especializar-se em generais bizantinos, possuir um dicionário de gírias de milicos e ler tudo sobre a moda seiscentista só para checar se a infanta Margarida usava calcinhas de elástico.
O preparador de originais é um xiita vocabular. Em Ser feliz, de Will Ferguson, há uma frase que resume a categoria: “O preparador de texto enlouqueceu”, exclama May. A personagem é editora de livros e até entende que o preparador é pago para ser minucioso, conferir gramática, pontuação e uso do idioma. “Mas esse sujeito passou das medidas. Passou mesmo. Ele assinalou a frase ‘manuscrito escrito à mão’, disse que era redundância, que a raiz em latim é manus, que significa ‘mão’.”
Tem todo o meu apoio.
O preparador é aquele sujeito que chega a sacrificar uma lagartixa só para ver se ela escorre pela parede ou desaba de uma vez no chão. Minha mãe quase chegou a esse ponto — sim, pois a preparação é um ofício que passa de geração em geração, só que ao contrário. Minha avó será a próxima.
Tem alma de preparador aquele que desconfia de tudo e se gaba publicamente ao encontrar algum erro gritante no original, como passagens bíblicas equivocadas num livro sobre São Francisco de Assis ou um tradutor que topou com a expressão “coolie-hating” e, distraído, salpicou um desvairado “ódio aos cães da raça collie”.
Corre a lenda sobre um profissional que achou uma incongruência no enredo de A invenção de Morel, de Adolfo Bioy Casares. Desde já, um mito entre seus pares.
Quando o distinto Paulo Werneck (ex-editor da Companhia e hoje no caderno Ilustríssima, da Folha de S.Paulo) me convidou para trabalhar para a editora, resgatando-me de um deprimente cargo de revisora num site de fofocas, ele revelou a principal qualidade do preparador: a desconfiança. Duvidar de tudo, até da grafia de Shakespeare, Tolstói e Getulio Vargas. (Sobre essa última, a lendária preparadora Márcia Copola deu a palavra final: após pesquisar documentos da época, viu que o Pai dos Pobres não acentuava o nome ao assinar, e assim ficou estabelecido).
Em termos de mania, a inverossimilhança e a impossibilidade física fazem salivar qualquer preparador. Uma frase pronta para a intervenção: “Com os cotovelos apoiados no ombro, ele se sentou correndo sobre a panturrilha esquerda, movendo o cenho na direção oposta”. (A não ser que o livro tenha motivos circenses. Nesse caso, convém ter à mão o telefone do Sindicato dos Artistas e Técnicos em Espetáculos de Picadeiro para esclarecer eventuais dúvidas.)
Como último e derradeiro sintoma da moléstia, o preparador de texto deve sofrer de dupla personalidade, pois precisa se mostrar respeitoso e arrogante a um só tempo. Respeitoso com o estilo do autor e com as soluções do tradutor, mas arrogante o suficiente para passar a tesoura e reformular os trechos que julgue necessário.
Um bom preparador se constrói com muito tempo, experiência e calmantes. Embora eu já demonstrasse pendor para a atividade em meus tempos de revisora de fofocas — títulos de minha lavra: “Gatuno rouba peruca de Jennifer Lopez” e “Julio Iglesias tira o sapato em cadeia nacional” —, minha consagração na área de copy-editing veio mesmo na Companhia das Letras, onde exasperei editores com meus comentários longos, engraçadinhos e desnecessários, e causei poderosas enxaquecas em tradutores renomados com minhas dúvidas e anseios estilísticos.
Nas palavras de FERGUSON 2002, pp. 71-2: “Preparadores de texto, ah! Todos malucos. Malucos, estou te dizendo!”.»

Texto de Vanessa Bárbara, jornalista e tradutora. Tirado DAQUI.

sábado, 24 de agosto de 2013

Ipsis litteris

«É corrente a crença de que os sentidos antigos das palavras são mais verdadeiros do que os atuais. É um caso específico do mito da língua perfeita, que teria existido em algum momento, em algum lugar. A crença explica o sucesso de livrinhos sobre a origem das palavras.
Ora, nunca se poderá descobrir o pretenso sentido original. Não se pode ir ao início dos tempos. Sempre há o limite dos documentos. A pesquisa deve se deter em um momento dado da história, que não é seu início. Além disso, em geral, descobre-se que então os sentidos já eram muitos...
Apesar de tudo, a crença permanece. Um de seus efeitos menos inteligentes é certa mania recente de ‘corrigir’ as interpretações correntes, atuais, populares. A tendência ataca indistintamente expressões idiomáticas, textos populares e provérbios, entre outros.(...)»


Muito bom artigo, que vale a pena ler completo AQUI


segunda-feira, 19 de agosto de 2013

a língua e muito mais

«(...) a língua não baixou do céu dada por Deus ou pelos deuses, que ela é fruto humano. Perfeito. O único problema é que a ideia de arbitrariedade passou a ser confundida por alguns com vale-tudo: se tudo é convenção, tudo pode ser mudado. Ora, vivemos de convenções de todos os tipos e achamos normal respeitá-las, porque foram feitas para isso, mas as da língua são altamente questionáveis aos olhos de muitos. Por que essa sanha? Por causa do seu valor simbólico.» (do blogue de Ivone Benedetti)

Vale a pena ler o texto completo AQUI e dar uma espiadela no blogue A Grenha.

 

sexta-feira, 9 de agosto de 2013

recordar "Cem Anos de Solidão"

Desenhos de Carybé para o livro.

«Arte por meio da escrita é o que fez o colombiano Gabriel García Márquez em sua obra definitiva, Cem Anos de Solidão. Construiu a história latino-americana tão repleta de guerras e solidão a partir da árvore genealógica de uma família.

A América Latina é uma região diferenciada do mundo — quanto à história da construção de sua identidade. As instabilidades políticas, aliadas à insuficiência de recursos, muito contribuiu para a eclosão de movimentos típicos da alma latino-americana: ditaduras, guerras, guerrilhas, repressões, exílios e exportação de refugiados são fatos próprios de nossa história. Uma história de solidão, como bem definiu um de seus maiores intérpretes. Na visão desse intérprete, isso se deve a um nó que evidencia “a in­suficiência dos recursos convencionais para tornar nossa vida acreditável”.

Esse mesmo intérprete delineou, com a inteligência que lhe é peculiar, o perfil inerente ao
continente latino-americano. Continente que revela o muito que tem de demente, mesmo  após a libertação do império espanhol, que por anos dominou a maioria dos países latino-
americanos. Trans­crevamos parte de um discurso desse intelectual, quando do 
recebimento da maior honraria que um homem de letras pode receber neste mundo: o Prêmio Nobel de Literatura.»


Link pra o artigo completo: AQUI


segunda-feira, 5 de agosto de 2013

tradutor poeta ou poeta tradutor?

Link para o texto completo: AQUI

«Se a obra de arte é o meio onde podem ser encontradas as respostas para as indagações da sociedade, o modernismo respondeu ao século 20 trocando a simetria pela irregularidade, pelo contraste, pela dissonância, pelo efeito do imprevisível e inesperado. Embora tivesse implícita uma democracia que não exigia que suas inovações fossem adotadas com exclusividade, dando espaço, também, àqueles que utilizassem os padrões fixos. É nesse cenário que surge Manuel Bandeira. Poeta modernista brasileiro, que chocou a sociedade com o poema “Os sapos” na Semana de Arte de 1922. A irreverência, a ausência de rimas, os elementos inesperados de construções metafóricas, os temas sociais em evidência são características marcantes da poesia de Bandeira.»

O parágrafo acima pertence ao texto de Cristina Patriota: «Manuel Bandeira: tradutor poeta ou poeta tradutor?»


Manuel Bandeira, poeta e tradutor, um dos mais
importantes autores de Língua Portuguesa. 



Os Sapos

Enfunando os papos,
Saem da penumbra,
Aos pulos, os sapos.
A luz os deslumbra.

Em ronco que aterra,
Berra o sapo-boi:
- "Meu pai foi à guerra!"
- "Não foi!" - "Foi!" - "Não foi!".

O sapo-tanoeiro,
Parnasiano aguado,
Diz: - "Meu cancioneiro
É bem martelado.

Vede como primo
Em comer os hiatos!
Que arte! E nunca rimo
Os termos cognatos.

O meu verso é bom
Frumento sem joio.
Faço rimas com
Consoantes de apoio.

Vai por cinquüenta anos
Que lhes dei a norma:
Reduzi sem danos
A fôrmas a forma.

Clame a saparia
Em críticas céticas:
Não há mais poesia,
Mas há artes poéticas..."

Urra o sapo-boi:
- "Meu pai foi rei!"- "Foi!"
- "Não foi!" - "Foi!" - "Não foi!".

Brada em um assomo
O sapo-tanoeiro:
- A grande arte é como
Lavor de joalheiro.

Ou bem de estatuário.
Tudo quanto é belo,
Tudo quanto é vário,
Canta no martelo".

Outros, sapos-pipas
(Um mal em si cabe),
Falam pelas tripas,
- "Sei!" - "Não sabe!" - "Sabe!".

Longe dessa grita,
Lá onde mais densa
A noite infinita
Veste a sombra imensa;

Lá, fugido ao mundo,
Sem glória, sem fé,
No perau profundo
E solitário, é

Que soluças tu,
Transido de frio,
Sapo-cururu
Da beira do rio...


terça-feira, 30 de julho de 2013

a força das crônicas nascidas na rua (durante as manifs no Rio)

«Tem a Mídia Ninja, a grande sensação dos meios de comunicação, a TV que transmite por telefone diretamente de onde o pau estiver quebrando, e tem a partir deste momento, aqui também pela internet, a Crônica Ninja.

É aquela que enrola a camiseta na cabeça dos bons modos de redigir, deixa de fora apenas os olhos de ver a emoção nas ruas, os narizes de respirar o vento das almas carregadas de gás lacrimogêneo – e vai transmitindo o que sai aos borbotões pelo coração, pela veia quântica da jugular. Tudo na certeza de que a edição, o pensar duas vezes, a pontuação escorreita, tudo que não for ao vivo e de primeira acaba frio como aquele prato de dobradinha fria que o Fernando Pessoa comeu como vingança quente em algum poema que a Bethania deve ter lido num show dos anos 80.

A Crônica Ninja, esta que agora aqui se vos apresenta digitalmente, liga a tecla F e sai mostrando o que antes não devia ser visto porque, diziam os técnicos, não tinha qualidade ou não era o que estava na grade. A Crônica Ninja não obedece regras, desdenha o ponto e vírgula e todos os salamaleques portugueses trazidos pelos herdeiros de Cabral e seus asseclas.

Desprezamos a imagem perfeita e a necessidade de um sinal claro de satélite. Apostamos no mesmo borrão dos impressionistas do século passado e na urgência de acima de tudo dizer o que passa na cidade, na memória dos cidadãos ou no desejo de quem quiser se expressar. Vale tudo. Valem todas as vírgulas e principalmente a ausência delas, pois são todos cacoetes ultrapassados, barreiras reacionárias e de tempos menos aflitos.
Chega das primaveras líricas dos velhos cronistas, libere-se a escrita a quem  queira. Às favas com os parágrafos que se abrem, cobrem cinco linhas, se fecham novamente, abrem em mais cinco linhas e assim vão formando um texto careta e previsível. A partir de agora vai um tijolaço. Hoje não tem revisão, é tudo de primeira e sem o novo dicionário ortográfico ao lado. Chega do culto ao texto burilado, que passou pelo copydesk. A redação está na rua, quebrando todos os parâmetros e metendo a língua aonde nunca foi chamada. A Crônica Ninja prefere o rascunho, os erros de sintaxe e as perplexidades das sensações. Não estamos mais interessados no cronista cheio de certezas, que pensa no que vai falar e trabalha a performance com todos os recursos de estilo. Vazem, otários. Não transmitiremos mais os colóquios de Fernando Sabino. Todo este mundo de clássicos, de câmera firme, imagens definidas, tudo isso ficou velho demais diante do novo modo Ninja de ver as coisas. O sujo, o não policiado, o papo livre, eis os vencedores. Estamos do outro lado do que se acostumou chamar de forças da ordem culta, das leis gramaticais e seus agentes ocultos, P2 que não se sabem mais se sujeitos ou predicados. A Crônica Ninja é a plataforma urgente para flanar nas ruas da cidade, nem aí para a necessidade do autor estar sindicalizado, com a carteira assinada, os impostos pagos ao INSS dos burocratas. ABRIMOS O VERBO E ELE VAI ASSIM, CRU, PARA AS REDES [maiúsculas nossas]. Colocamos as nossas incertezas e novas razões dentro de uma garrafa com qualquer inflamável. Atiramos contra os que querem a limpeza gramatical, vandalizamos a coerência semântica e outras academias mais. É pau, é pedra, é o fim das vidraças, das prateleiras e todos os academicismos da ordem vernacular. Tenho dito. Soltem o Amarildo. Rubem Braga não me representa.»

Fonte: AQUI

quinta-feira, 30 de maio de 2013

Mia Couto – Prémio Camões 2013

 “Eu nasci para estar calado. Minha única vocação é o silêncio. Foi meu pai que me explicou: tenho inclinação para não falar, um talento para apurar silêncios. Escrevo bem, silêncios, no plural. Sim, porque não há um único silêncio. E todo o silêncio é música em estado de gravidez.

Quando me viam, parado e recatado, no meu invisível recanto, eu não estava pasmado. Estava desempenhado, de alma e corpo ocupados: tecia os delicados fios com que se fabrica a quietude. Eu era um afinador de silêncios.”

Mia Couto, no livro Antes de Nascer o Mundo

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