terça-feira, 22 de maio de 2012

de vez em quando é preciso revitalizar a vida

Abaporu (do tupi-guarani, significa "O homem que come"). De Tarsila do Amaral, 1928.


A vitalidade do modernismo brasileiro, no período áureo dos anos de 1920, é devedora de significativas obras literárias, de exposições artísticas, debates candentes pelos jornais, criação de revistas, apresentação de manifestos. Nesse conjunto a Revista de Antropofagia destacou-se pela concepção ousada e pelas idéias polêmicas. Lançada em São Paulo, em 1928, por Oswald de Andrade e um grupo de amigos, como Raul Bopp e António de Alcântara Machado. Com proposta gráfica ousada, a Revista de Antropofagia teve duas fases bem diferenciadas, divulgando editoriais questionadores, textos ficcionais, artigos provocadores, comentários breves, notas de efeito cômico. Embora animada pelo espírito inovador, há escolhas bastante contraditórias.
De maio de 1928 a fevereiro de 1929, a revista circulou de modo autônomo como periódico, totalizando dez números, cada qual contendo oito páginas. Nessa primeira etapa os editoriais assinados por António de Alcântara Machado focalizam questões de ordem social e política. Oswald de Andrade, Raul Bopp são presenças constantes. Entre os colaboradores estão José Américo de Almeida, Luís da Câmara Cascudo, Ascenso Ferreira, Ruy Cirne Lima. Comparecem vários jovens escritores de Minas, a exemplo de Rosário Fusco, Abgar Renault, Carlos Drummond de Andrade, Rubens de Moraes, Pedro Nava, Murilo Mendes. Há nomes já consagrados: Yan de Almeida Prado, Manuel Bandeira, Augusto Meyer, Guilherme de Almeida, Menotti Del Picchia, Álvaro Moreyra. Em meio aos textos, são reproduzidos desenhos de Rosário Fusco (Cataguazes), Antonio Gomide, da argentina Maria Clemência.
A capa da Revista de Antropofagia estampa uma ilustração de Hans Staden (1525-1579). A composição destaca aspectos de um ritual ameríndio de devoração humana, em sintonia com o ideário proposto por Oswald de Andrade no “Manifesto Antropófago”, divulgado no primeiro número da revista. Ainda que pouco sistematizado, o manifesto é um norteador de princípios. Sua linguagem poética, disposta num conjunto de aforismos, contempla paródias, fórmulas exemplares, palavras de ordem, transliterações de canto em língua geral, jogos verbais. Convive com a irreverência e com o imediatismo panfletário. Em diálogo com o manifesto, engasta-se no miolo da página um desenho de Tarsila do Amaral, O antropófago, seguindo as linhas do seu óleo sobre tela Abaporu (“O homem que come”), ou seja, O antropófago, concluído em janeiro de 1928. A tela foi oferecida a Oswald em janeiro, como presente de aniversário. Seguindo essa temática, Tarsila publica na 2ª. “dentição” da revista o desenho Antropofagia (abril) e a reprodução do óleo sobre tela de mesmo título (junho), ambos de 1929.
Com o intuito de arejar idéias, provocar, agitar, propunha-se então a descida às nossas matrizes recalcadas, sem descartar o avanço técnico do mundo contemporâneo, e em paridade com as idéias de Marx, de Freud, e dos surrealistas. Oswald firma o manifesto “em Piratininga. Anno 374 da Deglutição do Bispo Sardinha”. No conjunto dos escritos, um exemplo a destacar é o artigo de página inteira na revista de número 5, em que Oswald de Andrade aproveita para rebater críticas de Tristão de Athayde, e reafirmar fundamentos de sua “antropofagia”, propondo uma revisão da “história daqui e da Europa”. Sugere, então, que a data de nossa independência seja 11 de outubro de 1492, “último dia da América livre, pura, descolombisada, encantada e bravia”. Compreender o país significava valorizar o legado primitivo dos ameríndios, o papel da cultura africana em nosso meio, as manifestações de nossa arte popular miscigenada. Nessa esteira reflexiva, envolvendo língua, cultura e sociedade, Mário de Andrade publica “O lundu do escravo”; “Romance do veludo”; “Lundu do escritor difícil”; “Antropofagia?”, além do capítulo de abertura de Macunaíma.(...)

Para continuar a ler, com sugestões de leitura sobre o tema, siga ESTE link.

Texto de Maria Augusta Fonseca, Professora Livre Docente da Universidade de São Paulo (USP).

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