domingo, 19 de setembro de 2010
João Gilberto Noll falando sobre literatura
"A viagem é muito individual, não é? [silêncio] Eu acho que tem que doer um pouco, a escrita. Se não doer um pouco tem alguma coisa errada aí. A não ser que o cara seja um escritor de questões históricas... Seja muito distante da psicologia pessoal, está mais preocupado com o mundo objetivo etc. Se não, acho que tem que doer um pouco. Na literatura, tem que ir um pouco além daquilo que você vive, daquilo que se é obrigado a viver no meio social... Esconde-se muita coisa diante dos outros. E na literatura tem que se desvelar, revelar isso... É isso que dói. Eu quando escrevo fico pensando: “Essas coisas não se dizem! Não devem ser ditas”. Não, vamos dizê-las, sim. Vamos dizê-las, sim."
quinta-feira, 16 de setembro de 2010
As armadilhas da língua
Tautologia é o termo usado para definir um dos vícios de linguagem. Consiste na repetição de uma idéia, de maneira viciada, com palavras diferentes, mas com o mesmo sentido. O exemplo clássico é o famoso 'subir para cima' ou o 'descer para baixo'. Mas há outros, como podemos ver na lista a seguir:
- elo de ligação
- acabamento final
- certeza absoluta
- quantia exata
- nos dias 8, 9 e 10, inclusive
- expressamente proibido
- em duas metades iguais
- sintomas indicativos
- há anos atrás
- outra alternativa
- detalhes minuciosos
- a razão é porque
- anexo junto à carta
- de sua livre escolha
- superávit positivo
- todos foram unânimes
- conviver junto
- fato real
- encarar de frente
- multidão de pessoas
- amanhecer o dia
- criação nova
- retornar de novo
- empréstimo temporário
- surpresa inesperada
- escolha opcional
- planejar antecipadamente
- abertura inaugural
- continua a permanecer
- a última versão definitiva
- possivelmente poderá ocorrer
- comparecer em pessoa
- gritar bem alto
- propriedade característica
- demasiadamente excessivo
- a seu critério pessoal
- exceder em muito
Observemos que todas essas repetições são dispensáveis.
Por exemplo, 'surpresa inesperada'. Existe alguma surpresa esperada?
- elo de ligação
- acabamento final
- certeza absoluta
- quantia exata
- nos dias 8, 9 e 10, inclusive
- expressamente proibido
- em duas metades iguais
- sintomas indicativos
- há anos atrás
- outra alternativa
- detalhes minuciosos
- a razão é porque
- anexo junto à carta
- de sua livre escolha
- superávit positivo
- todos foram unânimes
- conviver junto
- fato real
- encarar de frente
- multidão de pessoas
- amanhecer o dia
- criação nova
- retornar de novo
- empréstimo temporário
- surpresa inesperada
- escolha opcional
- planejar antecipadamente
- abertura inaugural
- continua a permanecer
- a última versão definitiva
- possivelmente poderá ocorrer
- comparecer em pessoa
- gritar bem alto
- propriedade característica
- demasiadamente excessivo
- a seu critério pessoal
- exceder em muito
Observemos que todas essas repetições são dispensáveis.
Por exemplo, 'surpresa inesperada'. Existe alguma surpresa esperada?
sexta-feira, 10 de setembro de 2010
fontes de consulta
A CIDADE DO HOMEM - apresentação



Ontem ganhei um exemplar do meu mais recente - e difícil, e desafiador - trabalho de revisão: A Cidade do Homem, de Amadeu Lopes Sabino. Um livro entre Portugal e Brasil durante a segunda metade do século XVIII. Um pedaço da História em meio às ideias de liberdade daqueles tempos, que culminaram com a Revolução Francesa na Europa, e no Brasil alimentaram os bastidores da chamada "inconfidência mineira".
Da contra-capa:
Romance, ficção documentada, relato das errâncias de um narrador europeu do século XXI através do universo mental do iluminismo, A Cidade do Homem é a biografia imaginada de António Dinis da Cruz e Silva (1731-1799), magistrado e poeta árcade que viveu, trabalhou e poetou em Portugal e no Brasil. Participante ativo nas polémicas que, durante o consulado de Pombal, agitaram o Reino e a Europa, foi juiz militar em Elvas e autor de O Hissope, sátira à querela protocolar entre o bispo e o deão da Sé da cidade alentejana. Presente desde o início no imaginário do protagonista, o Brasil torna-se o cenário da narrativa com a transferência de Cruz e Silva para a Relação do Rio de Janeiro em 1776. A partir desse ano, servidor da Justiça e de Apolo, julgou e poetou nas capitanias do Sul, sobretudo em comarcas do Rio e de Minas, privando com os juristas e árcades locais. Em 1792, seria membro do tribunal que julgou e condenou na capital do Brasil os inconfidentes mineiros, entre eles os seus companheiros mais próximos nas lides judiciais e na poesia. Numa digressão através da História e das ideias em busca da polis racional, A Cidade do Homem centra-se na condenação dos conspiradores à morte ou ao degredo, evocando uma época que, na Europa, em Portugal e no Brasil nas vésperas da independência, prenunciou os antagonismos e as hecatombes do nosso tempo.
A Cidade do Homem
Amadeu Lopes Sabino
568 pp
Sextante Editora
Lisboa, Setembro de 2010
O livro foi apresentado em Elvas, cidade de nascimento de Amadeu Sabino, e em Lisboa a 21 de Outubro, na Livraria Bulhosa.
Esta obra será em breve publicada também no Brasil.
Agora também editado no Brasil, pela editora Record:
sábado, 4 de setembro de 2010
alegrias e tristezas do trabalho
Ontem recebi o meu exemplar de oferta por ter feito a revisão de mais este livro de Alain de Botton.Em tempos em que se pensa tanto sobre a forma de trabalhar, e em que o próprio trabalho é disputado a peso de ouro, refletir sobre vários contextos e situações da nossa atividade profissional, seja esta qual for e onde for, é no mínimo bastante útil; e além de útil pode ser bastante interessante, se acompanharmos os relatos e as considerações deste espirituoso autor.
Aquilo a que normalmente nos dedicamos quando vamos entrar para a universidade, ou quando estamos num momento crítico da nossa atividade - isto é, pensar de forma concentrada sobre que rumo dar à nossa vida profissional -, aqui, ao longo da leitura do livro, é possível fazer muito naturalmente, com mais perspectiva, e até divertidos, mas nem por isso menos envolvidos. E ainda que as rotinas e as pessoas que o autor traz sejam um pouco ou mesmo muito diferentes de nós, percebemos que são idênticos os anseios de realização e de complementação do nosso sentido de vida através do trabalho.
Da contracapa:
"Com uma perspectiva filosófica e a sua característica combinação de perspicácia e sabedoria, Alain de Botton conduz-nos numa jornada que abarca toda uma gama propositadamente eclética de actividades profissionais, desde a ciência aeroespacial até ao fabrico de biscoitos, da contabilidade às belas artes, com o objectivo de explorar o que faz o nosso trabalho ser gratificante ou desalentador."
Alegrias e Tristezas do Trabalho
Alain de Botton
Tradução de Lídia Geer
Publicações Dom Quixote
Alfragide, Abril de 2010
384 pp
quinta-feira, 2 de setembro de 2010
'E agora, José?'
Num determinado momento deste blogue tive de me definir quanto a utilizar ou não as normas do novo Acordo Ortográfico. Mesmo ciente de que eventualmente poderia sucumbir à grande confusão em torno das tais normas, lá fui eu. Mas hoje, ao ler este comentário sobre a palavra dia-a-dia (ou dia a dia?), é que percebi onde me tinha metido!"De facto, na 5.ª edição do Vocabulário Ortográfico da Academia Brasileira de Letras, a palavra dia a dia aparece grafada sem hífen.
Na Base XV, n.º 6, é indicado que nas locuções de qualquer tipo não se aplica o hífen, a não ser em palavras cujo uso já esteja consagrado, como, por exemplo, «água-de-colónia», «arco-da-velha», «cor-de-rosa».
Deste modo, a 5.ª edição do Vocabulário Ortográfico da Academia Brasileira não consagra esta palavra com hífen. Podemos então admitir que no Brasil a grafia realmente muda.
Todavia, no Portal da Língua Portuguesa (www.portaldalinguaportuguesa.org), sobre a ortorgrafia desta palavra, lê-se: «A grafia da palavra dia-a-dia não muda com o novo acordo.» Em Portugal, ainda não é possível afirmar com certeza o que irá acontecer."
(Ciberdúvidas da Língua Portuguesa, 02/06/2009)
Se é assim... volto ao hífen que já tinha eliminado do subtítulo deste blogue.
Mas notem bem: no Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa, de João Malaca Casteleiro, da Porto Editora, a palavra consta sem hífen, e sem variante. - 'E agora, José?'
número 1 da Revista PESSOA
domingo, 15 de agosto de 2010
"Falar uma língua não é fazer o que a língua diz"

Leio numa curiosa entrevista com Daniel Heller-Roazen, linguista, pesquisador, algo que não conhecia: as misturas de línguas nos poemas medievais. Poemas que começam, por exemplo, em árabe, mas terminam em português ou espanhol; ou então que alternam entre latim e francês, ou galego e provençal. O que interessa a Daniel é a ideia de um texto cuja língua era incerta, ou mesmo impossível de se identificar. Como ele diz, "são textos escritos numa língua de ninguém".
Recentemente, Daniel H-R publicou um livro chamado Escolalias - Sobre o Esquecimento das Línguas, onde, entre outros temas, fala sobre a noção de pertença da língua, que ele comenta também na entrevista: "A preocupação com a conservação das línguas expressa uma concepção de linguagem que é, em minha opinião, contestável. Quem tem, enfim, o poder de decidir o que as pessoas falam, ou como elas falam? Uma língua pertence igualmente a todos que a falam, não é inalienável, como uma propriedade."
E ainda: "Falar uma língua não é fazer o que a língua diz, mas se envolver com ela, mudá-la, alterá-la."
Achei útil citar tais ideias, além da menção ao livro do autor, em tempos em que tantas dúvidas e questões de norma trazem a língua portuguesa para o debate quotidiano - e um debate, diga-se de passagem, bastante acalorado, e que ainda vai longe de terminar.
Escolalias: Sobre o Esquecimento das Línguas
Daniel Heller-Roazen
Tradução de Fábio Akceirud Durão
216 pp
Editora Unicamp
2010
sexta-feira, 6 de agosto de 2010
129.864.880 de livros

O mundo tem hoje cerca de 129 milhões de livros. Quem se deu ao trabalho de fazer essa conta foi o Google, tendo como base seu ambicioso projeto de digitalização de livros, o Google Books. O número impressiona quando se pensa na Biblioteca de Alexandria, a maior da antiguidade. Segundo a previsão mais otimista, feita pelo físico Carl Sagan na série Cosmos, ela teria perto de um milhão de pergaminhos, possivelmente muitos deles duplicados.
O engenheiro de software Leonid Taycher explicou no blog do Google Books o complexo processo utilizado pela empresa para fazer o cálculo. O Google coleta informações de várias fontes como bibliotecas, livrarias e outros catálogos. Com um arquivo bruto que já ultrapassa um bilhão de registros, a empresa então analisa esses dados para diminuir a quantidade de duplicações em cada uma das fontes, baixando o número a 600 milhões.
A partir daí é preciso um ajuste fino para diminuir as duplicações que permanecem entre as diferentes fontes. Como exemplo, Taycher conta que existem 96 registros diferentes em 46 fontes do livro "Programando em Perl, 3ª edição". Duas vezes por semana a equipe unifica todos esses registros em volumes separados, levando em conta todos os atributos de cada um deles, como nome do livro, autor, editora, ISBN, ano de publicação, etc.
Após todo esse trabalho o algoritmo do Google entregou cerca de 210 milhões de volumes, mas esse número muda sempre que a conta é refeita, por causa dos novos dados que chegam e das mudanças para aperfeiçoar o algoritmo.
O número final foi alcançado após a exclusão de microfilmes, gravações de áudio, mapas e outras obras que não deveriam ser classificadas como livros: 129.864.880.
Em um de seus projetos mais polêmicos, o Google quer digitalizar todos os livros do mundo, o que tem lhe valido uma grande briga com editoras e autores. O Google Books já foi criticado até mesmo pelo Departamento de Justiça dos EUA, que acusa a empresa de não dar a devida proteção ao direitos dos autores das obras.
Fonte: O GLOBO de 06/8/2010: http://oglobo.globo.com/te
quinta-feira, 5 de agosto de 2010
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