terça-feira, 13 de julho de 2010

antes do nome


















Não me importa a palavra, esta corriqueira.
Quero é o esplêndido caos de onde emerge a sintaxe,
os sítios escuros onde nasce o "de", o "aliás",
o "o", o "porém" e o "que", esta incompreensível
muleta que me apóia.
Quem entender a linguagem entende Deus
cujo Filho é Verbo. Morre quem entender.
A palavra é disfarce de uma coisa mais grave, surda-muda,
foi inventada para ser calada.
Em momentos de graça, infrenquentíssimos,
se poderá apanhá-la: um peixe vivo com a mão.
Puro susto e terror.


Bagagem
Adélia Prado
2ª edição
Editora Nova Fronteira
Rio de Janeiro, 1979
p. 25

segunda-feira, 12 de julho de 2010

enfim, Daphne


Revi as primeiras provas ainda em Março, antes de uma longa sequência de providências que fazem parte da produção de um livro até à sua publicação. O livro foi publicado em Maio, mas somente agora tenho nas mãos o meu exemplar de Daphne, um dos trabalhos que mais gostei de fazer nos últimos tempos, pela história muito bem conduzida e pela excelente tradução.

Sinopse: "Estamos em 1957. A escritora Daphne du Maurier, no auge da carreira e da fama, desespera face ao colapso do seu casamento. Vagueando sem descanso Menabilly, a sua adorada casa junto ao mar, na Cornualha, é assombrada pelo remorso e pelas personagens dos seus livros, nomeadamente Rebecca, a heroína do mais famoso dos seus romances. Ao procurar alguma coisa que a distraia dos seus problemas, Daphne interessa-se apaixonadamente por Branwell, o infeliz irmão das irmãs Bronte, e inicia uma troca de correspondência com o enigmático Alex Symington, procurando elementos para uma biografia de Branwell. Mas, por detrás da respeitável figura de Symington está um carácter escorregadio com muito para esconder, e depressas a verdade e a ficção se tornam impossíveis de distinguir.

Daphne é uma história de obsessão e posse; de manuscritos roubados e assinaturas forjadas; de amor perdido e amor encontrado."

Daphne
Justine Picardie
Tradução de Mário Dias Correia e Maria da Graça Bertal
Publicações Dom Quixote
Maio de 2010
Lisboa
340 pp

domingo, 11 de julho de 2010

Quanto Setembro vier: autores lusófonos em e-books

Li no blogue Estante de Livros que já se anuncia para Setembro o acesso a livros de autores lusófonos através dos ebooks. Trata-se de autores publicados por editoras do Grupo Leya, como António Lobo Antunes, José Saramago, Francisco Camacho, Maria Dulce Cardoso e muitos outros. Para saber mais, vá a LeYa com plataforma de e-​books em Setembro

sábado, 10 de julho de 2010

filosofando...


"Só sei que nada sei." Sócrates (469-399 a.C.)




desabafo entre vírgulas e pronomes

(...) "operários, camponeses e intelectuais de mãos dadas, avante, esta vírgula aqui, ponho ou não ponho, sei lá, que porra, a merda da vírgula, isto das vírgulas, e sei lá se é cujo ou se é que, isto dos pronomes, relativos ou sei lá o quê, ando à volta com as vírgulas e os pronomes, merda, essa coisa de escrever, já me gozaram, foi por causa de uma merda de uma vírgula ou de um pronome, vão gozar com a puta que os pariu, reaccionários, a vírgula e o pronome, hei-de lixá-los." (...)

tirado do livro Tempo Adiado, de Paula de Sousa Lima
Edições ASA
Setembro de 2009
p. 51

trabalhar com o autor

Esta semana entreguei um trabalho que posso referir como o mais difícil que já fiz. A primeira dificuldade foi trabalhar diretamente com o autor, e nós sabemos - autores, editores e revisores - que esta não costuma ser uma relação fácil. O autor tem razões que o revisor "desconhece" - e vice-versa.
Por todos os motivos a intermediação do editor é muito importante, e é o que acontece na grande maioria das vezes; mas acontece, também, de termos de lidar com situações em que este moderador não está presente.
O autor tem uma muito compreensível e forte ligação com aquilo que produziu: o seu livro. O revisor tem um compromisso profissional e um desejo de perfeição e adequação. Mas a questão é que, pelo meio, surgem as incertezas, as imperfeições, as limitações de cada um. Não é simples...

Acrescente-se ainda o nível de exigência do texto. Num texto erudito, com inúmeras referências e citações, e cujo contexto nos remete para outros séculos, há que ter uma atenção redobrada ou mais que isso: exige leituras e releituras; exige pesquisa atenta.

Foi, enfim, um desafio desses raros que acontecem, mas foi também um prazer de ler. E motivo de muito aprendizado. Fui obrigada mais uma vez a recordar que, como em todas as atividades humanas, também em revisão de texto não há certezas: as normas mudam, conforme o tempo e o lugar, e porque a língua é mutável. Quase nada é definitivo, ou automático; e tudo pode e deve ser repensado, averiguado, confirmado.
E, sobre tudo isso, há, ainda e sempre, a vontade soberana do autor; a sua 'licença poética', que é só dele e de mais ninguém.

terça-feira, 6 de julho de 2010

(a nova) Biblioteca de Alexandria




Inaugurada em 2002, próximo ao local da antiga biblioteca de Alexandria, uma das maiores bibliotecas do mundo antigo e fundada, segundo consta, no início do
século III a. C.

quinta-feira, 1 de julho de 2010

Jerusalém, de Gonçalo Tavares

Não entrei logo no livro. Foram necessárias as primeiras vinte páginas para eu não conseguir mais largar Jerusalém; a partir daí me deixei levar até à última linha quase sem pausas.



(...) "trabalhava parte do dia numa clínica do Estado e à tarde dirigia-se à biblioteca central para recolher documentação para o seu estudo que visava entender o horror e a História, e com isso os homens. Ele queria captar o conceito de saúde de uma forma mais vasta: a saúde mental da humanidade, do conjunto dos homens, a saúde mental da cidade enquanto agrupamento organizado e eficaz na restrição da violência. Conhecer a saúde mental da História, era esse o objectivo final do seu projecto de investigação."
(...)
"Se percebesse como a História pensava, se a encarasse como um organismo com cérebro, e se chegasse por via da documentação e da investigação a gráficos e fórmulas que explicassem os acontecimentos dos séculos, Theodor chegaria ao que milhares de homens - pequenos e grandes, violentos ou pacíficos - haviam tentado: dominar a História."

Jerusalém
Gonçalo M. Tavares
7ª edição
Editorial Caminho
Março de 2008
256 pp



Prémio José Saramago
Prémio LER/Millenium-BCP
Prémio Portugal Telecom de Literatura 2007

sexta-feira, 18 de junho de 2010

o pão e o livro

1922-2010

"O pão não precisa de marketing porque todos nós precisamos de comer pão. No dia em que o livro também não precisasse de marketing, esse seria o dia em que o livro estaria tornado tão necessário como o pão."

José Saramago

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