quarta-feira, 24 de fevereiro de 2010

Acordo: sim ou não?

Tenho procurado manter aqui o português de antes do Acordo - opção da grande maioria dos editores portugueses e não só.
Por outro lado, sei de autores portugueses que já aderiram ao Acordo.
E mais: as novas normas terão de vingar mais cedo ou mais tarde, independentemente das preferências pessoais.

Em resumo: este blog está indeciso, mas não deveria manter a indecisão por muito tempo...

revelação


Dulce Maria Cardoso
Prémio da União Europeia para a Literatura 2009
com o livro Os Meus Sentimentos



É uma noite de temporal. A noite do acidente. Há uma gota de água suspensa num estilhaço de vidro que teima em não cair.
Há um instante que se eterniza. Reflectida na gota, Violeta mergulha nessa eternidade e recorda o que pode ter sido o
último dia da sua vida, e nesse dia, toda a vida, e nessa vida,
os pais, a filha, a criada, o bastardo, e em todos, a urgência da vida que prossegue indiferente como estrada de onde ainda
agora se despistou. Nessa posição instável, de cabeça para baixo, presa pelo cinto de segurança, parece que tudo se desamarra.
O presente perde a opacidade com que o quotidiano o resguarda e Violeta afunda-se nos passados de que é feita, uma espiral alucinada de transparências e ecos. (...) Para onde foi o futuro?
(da badana de Os Meus Sentimentos)

Os Meus Sentimentos
312 pp
Edições ASA
Lisboa, Agosto de 2009


Perturbadores e belíssimos, os romances de Dulce Maria Cardoso criam personagens inesquecíveis enredadas em vidas que nos emocionam tanto quanto nos permitem olhar o mundo de uma forma atenta, inteligente e muitas vezes inesperada.
(da contracapa de O Chão dos Pardais)

O Chão dos Pardais
224 pp
Edições ASA
Lisboa, Outubro de 2009



terça-feira, 23 de fevereiro de 2010

Kundera

... os seus saltos soando no passeio fazem-me pensar nos caminhos que não percorri e que se dividem como ramos de uma árvore. Você despertou em mim a obsessão da minha primeira juventude: imaginava a vida à minha frente como uma árvore. Chamava-lhe então a árvore das possibilidades. Só durante curtos momentos se vê a vida assim. Depois ela surge como uma estrada imposta de uma vez para sempre, como um túnel donde não se pode sair. Contudo, o antigo aparecimento da árvore permanece em nós sob a forma de uma indelével nostalgia. Você recordou-me essa árvore, e, em troca, quero transmitir-lhe a imagem dela, fazer-lhe ouvir o seu murmúrio feiticeiro.

Do livro A Identidade, de Milan Kundera
54 pp
Edições Asa






Má tradução é texto fadado à insuficiência, por mais que o revisor leia e releia.
Má tradução associada a prazos curtos: não há revisor que dê jeito.

Real Gabinete Português de Leitura - Rio de Janeiro

fachada


interior


Instituição fundada em 1837 por imigrantes portugueses.
Edifício projectado pelo arquiteto português Rafael da Silva e Castro.

pedaços de História – O Rastro do Jaguar






1º Prémio LeYa
Março de 2009
568 pp




O autor Murilo Carvalho leva-nos ao virar do século XIX em Congonhas do Campo, Minas Gerais.
Um antigo jornalista de origem portuguesa, acompanhado do amigo Pierre, conduz-nos ao interior do Brasil e testemunha os conflitos que deram origem a uma das guerras mais sangrentas do hemisfério sul – a Guerra do Paraguai.
É também a guerra pelo espaço vital das populações índias, que desde então tentam recuperar a sua Terra Mítica. E ainda a guerra pessoal do próprio Pierre à procura de suas origens.

Baseado em factos verídicos e personagens reais, O Rastro do Jaguar retrata os intensos choques culturais e sociais que marcaram o século XIX e a relação dos europeus com as suas antigas colónias.

Um épico, às vezes desigual entre o que pretende e o que consegue, mas sem dúvida um retrato impressionante de um Brasil em busca do seu destino.

sábado, 20 de fevereiro de 2010

Adélia Prado



O Coração disparado
112 pp

Editora Nova Fronteira

Rio de Janeiro, Abril de 1978


Cinzas

No dia do meu casamento eu fiquei muito aflita.
Tomamos cerveja quente com empadas de capa grossa.
Tive filhos com dores.
Ontem, imprecisamente às nove e meia da noite,
eu tirava da bolsa um quilo de feijão.
Não luto mais daquele modo histérico,
entendi que tudo é pó que sobre tudo pousa e recobre
e a seu modo pacifica.
As laranjas freudianamente me remetem a uma fatia de sonho.
Meu apetite se aguça, estralo as juntas de boa impaciência.
Quem somos nós entre o laxante e o sonífero?
Haverá sempre uma nesga de poeira sob as camas,
um copo mal lavado. Mas que importa?
Que importam as cinzas,
se há convertidos em sua matéria ingrata,
até olhos que sobre mim estremeceram de amor?
Este vale é de lágrimas.
Se disser de outra forma, mentirei.
Hoje parece maio, um dia esplêndido,
os que vamos morrer iremos aos mercados.
O que há neste exílio que nos move?
Digam-no os legumes sobraçados
e esta elegia.
O que escrevi, escrevi
porque estava alegre.

quarta-feira, 17 de fevereiro de 2010

Livraria LELLO - Porto


Fotógrafo: Aurélio Paz dos Reis






Alain de Botton


Título original: How Proust can change your Life
Tradução: Sónia Oliveira
240 pp
Publicações Dom Quixote
Alfragide, Outubro de 2009


Este foi, sem dúvida, um dos livros que mais gostei de ler e rever. Às vezes era difícil manter o olho de revisor, tal o interesse que despertou em mim: pelas revelações sobre Proust, e sobretudo pelo estilo de A. de Botton, de um humor refinado e inteligente. Botton é alguém que fala de temas comuns de tal forma, em que o clichê jamais está presente.

É daqueles tais livros que damos graças quando nos entregam para rever. Trabalho que é só prazer.

A título de curiosidade, o primeiro capítulo chama-se: Como amar a vida hoje.

segunda-feira, 15 de fevereiro de 2010

as enciclopédias ontem - e hoje?


 Uma das minhas melhores experiências como assistente editorial foi a participação na edição de alguns livros do ano da edição brasileira da enciclopédia World Book, que no Rio era publicada por um pequeno departamento da antiga editora Guanabara-Koogan, hoje parte do Grupo GEN (Grupo Editorial Nacional).
O chamado Livro do Ano era uma forma de manter minimamente actualizada a enciclopédia como um todo, onde se incluíam, ampliados em relação ao original, verbetes específicos da realidade brasileira.
Ainda melhor foi, posteriormente, ter a oportunidade de actualizar alguns volumes da própria enciclopédia, cujos verbetes nacionais já se encontravam por demais desfasados.

Hoje, com a Wikipedia e muitas outras fontes de consulta na internet, não consigo imaginar qual terá sido o destino das enciclopédias impressas, com o espaço limitado do papel facilmente ultrapassado pelo espaço ilimitado da web. Haverá alguém interessado em folhear os exemplares que eventualmente ainda se encontrem nas casas de algumas famílias que um dia os adquiriram em prestações?



Revista LER, Abril 2011. Comentário elucidativo de Umberto Eco: "A internet tem o problema de não ser filtrada. Há todo o tipo de informação possível. No entanto, a cultura é feita de filtragem. O que é a enciclopédia? É o conjunto das notícias controladas pela comunidade científica que nos diz que vale a pena saber isto e não vale a pena saber aquilo."

Matéria publicada em 15/03/2012 no jornal Folha de S. Paulo sobre o fim da Enciclopédia Britânica: http://livrosetc.blogfolha.uol.com.br/2012/03/14/enciclopedia-x-wikipedia/

"(...) A web, como se sabe, é a principal concorrente. Os números de queda nas vendas dão a medida do estrago: em 1990, foram compradas 120 mil coleções, em 2010, apenas 8.500. E a concorrente é principalmente a Wikipedia, como também se sabe, com seus 3, 9 milhões de verbetes, atualizados a cada instante por infinitos voluntários em todo o mundo. A Britânica reúne 120 mil verbetes, que só podiam ser mudados a cada nova edição bienal – e se você pensar que ninguém renova a enciclopédia de casa a cada dois anos, é ainda maior o estado de desatualização do leitor fiel que, por algum motivo insondável, se recuse a procurar mais sobre o assunto na internet. (...)"


Encyclopædia Britannica, 1768-2012

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